Aug 15, 2008

Eu comprava!


Há uma tendência generalizada para se pensar que ter opinião é, tão somente, dizer-se "gosto" ou "não gosto" de algo ou alguém. Creio eu, na minha modesta opinião, que ter opinião é bem mais do que isso. Pode ser termos a capacidade de conceder importância a quem a tem, independentemente de opiniões imediatistas, radicais, assentes sobre fraca teoria e pouco conhecimento de causa. Paula Rego é indiscutivelmente admirável e uma das mais portuguesistas pintoras vivas. Porque vos falo desta artista no meu blogue sobre moda? Porque a "minha" Vogue de Setembro a isso me obriga:


"Paula é uma excelente ouvinte. A sua face é muito expressiva e, escusado será dizer, está artisticamente maquilhada. Mas há algo nos seus olhos: o modo como se enchem de luz, vivem cada palavra e quase nos tiram uma radiografia. Paula explicou-me o nome do tom de verde da minha gabardina. Se há assunto que faz com que se expresse muito bem é a Moda. Parágrafos após parágrafos, em Behind The Scenes, descrevem o "amor pelas roupas" e por vestir-se bem que herdou da mãe, que até desenhou a escadaria da vivenda dos anos 30, que a família tem no Estoril, para que as suas entradas e saídas tivessem sempre estilo. E "se contar histórias é algo intrínseco nos quadros de Paula, as roupas tornaram-se intrínsecas às suas histórias". Por falar de "roupas nos seus quadros", não pude deixar de perguntar-lhe se deixara propositadamente ver "ao mundo" que O Homem da Almofada no Estúdio (2004) envergava umas calças Ralph Lauren. "Oh! Eram Ralph Lauren? Não me apercebi de que eram de designer. Comprei-as nuns saldos. Ou terá sido numa loja dos 300?


Também gosta de ouvir falar de Moda. Referiu como era agradavelmente invulgar e muito moderno o seu amor e admiração pela Moda numa altura em que muitos desfiles se parecem com performances de arte. "É importante o modo como as roupas nos ficam e quais os cortes que se adequam às nossas proporções." Paula Rego chegou mesmo a pensar uma peça de Moda/Arte para a Vogue inglesa de 2003 (onde "vestiu uma boneca juntamente com o designer Hamish Morrow") - foi "a mais feia de todas".

Adorava fazer compras na Selfridges de Londres, onde pode "ver, escolher e experimentar roupas sem ser forçada a comprá-las". ("Não sei como comportar-me nas lojas de designer. Estamos sob tanta pressão.") Veste Marni e Nicole Farhi, mas também peças escolhidas à mão em quase toda a parte. Usa muita bijutaria e uma das suas peças favoritas é um colar Marni porque é "muito leve". ("Não acha que estes colares modernos são pesados?") Paula discute Moda do ponto de vista de uma artesã, com sentido de humor. Estaria interessada em desenhar uma colecção de Moda, um dia? "Adoraria", respondeu. E passou a descrever, com os movimentos de mãos familiares de uma mulher que conhece bem roupas, como seria a sua colecção, "muito ao estilo dos anos 50 - sabe, quando eu era jovem -, estruturada e com uma cintura definida." (entrevista a Paula Rego por Svetlana Knezevic, Vogue Portugal, edição de Setembro de 2008)


Sendo assim, eu comprava!

2 comments:

vague said...

Paula Rego é uma verdadeira senhora da arte, de grande sensibilidade ao mundo. Tb li a entrevista mas sobretudo o q me fica dela são as histórias que conta na pintura.

fina estampa said...

acho que também comprava! a Paula Rego é grande.